30.10.07

Quando eu for grande....

- Até onde podemos crescer, pai?
- Até morrer.

- Mas, quando somos velhos, não ficamos pequenos?
- Quando chegamos a velhos somos maiores do que tudo.

- Maiores do que aquela girafa?
- Sim, maiores do que ela.

- E maiores do que a árvore em frente da nossa casa?
- Sim, muito maiores.

- Maiores do que as nuvens, pai? Maiores do que o céu?
- Sim, filho.

- Então, até onde podemos crescer?
- Até sempre, filho.


banda sonora: Foy Vance - Homebird
Agora



... ou nunca mais.


29.10.07

Acorda!

Não tarda nada, já tarda.
O que era pluma vira fardo.
O papel imaculado fica pardo.
E o tempo que voa, afinal, está parado.
Eu, já não aguardo.

24.10.07

INSAN(A)IDADE



Não me digam por favor
Que eu não sei o que digo
Que o que sinto não faz sentido
Que tudo é orgulho ferido.

Não me venham dizer agora,
Que eu estou cega, que estou mouca
Que não tarda nada, fico louca
Que a minha força de vontade é pouca

Não, não se atrevam a sugerir
Que gosto disto que estou a sentir
Que aposto o oposto do que é atrair
Que o suposto proposto era eu fingir.



Não, chega!
Vocês sabem lá



Da luta que travo diariamente,
De como como e vomito esta mente,
Da canseira que é querer ser indiferente...



Chega, basta!
Que sabem vocês de mim?



Do que fiz para chegar aqui?
Do que vivi? Do que morri?
Do que senti quando renasci?

Sou eu, só eu, só eu, sou eu
Que sei da terra, da água, do céu
Que sei do fogo que me sobreviveu



Eu sei que sou só eu que sei
Deixar voar como eu sempre voei
E esperar não morrer como eu já matei.

16.10.07

CÊ




Canta, Caetano, canta!
Que esse canto colorido
é um coito consentido.
Cala, Caetano, cala!
Cala com a tua escala.
O silêncio que se instala
E fala...
Conta Caetano, conta!
Como é que você s'atreve?
Como é que você consegue?
Encantar o próprio encanto?



11.10.07

FUTILIDADES




...serão, sim, talvez.
Mas vê-los, assim, a vestir os meus pés...
Vê-los moldar as minhas pernas...
Torná-las altas e muito mais belas.
E ver-me de cima, ver-me elegante
Ver-me grande, quase gigante...
E ver no espelho uns pés de princesa
Faz-me sorrir e pensar na certeza
Que o final feliz da Cinderela
foi um sapato de cristal,
não uma chinela!

10.10.07

A DUALIDADE DA TRI-VIALIDADE







Quando o Dois chega só depois do Três,
E o Três não faz as contas que o Dois fez.

E o Quatro está lá... não diz quase nada
Mas sabe de cor esta tabuada.

O Dois desculpa-se pelo atraso
O Três não ouve
O Quatro não faz caso

E mesmo sem querer fazer mal nenhum
A conta final depende do Um .
E sem dizer nada, sem aparato
O Dois agacha-se entre o Três e o Quatro.

O Um grita "Volta! O teu lugar é aqui!
Inteiro, redondo, ao lado de mim."

4.10.07

APARÊNCIAS

Aparentemente




... mas só aparentemente.
Porque a maré também é alta.
E o que é seco agora,
o que parece inútil,
mais tarde, acaba por fazer falta.
Aparentemente,
... mas só aparentemente.
Porque o mar acaba por chegar,
E o que parece perdido,
e não ter destino,
depois, também sabe flutuar.
Aparentemente,
mas só aparentemente.
Este barco está vazio
este barco não tem gente.





2.10.07

Quem disse...

... que a verdade não tem preço,
mentiu-te.
Mentiu-te descaradamente.