20.4.13

TRANÇAS





No tempo das tranças, o horizonte era ali. No muro do quintal, onde, encostadas, as bicicletas descansavam da lama. Ou no largo da rua, onde o país acabava e se jogava às escondidas. Às vezes, no tempo das tranças, o horizonte era o domingo no rio. Ou o Verão, onde, de madrugada, se arrastava um carro abarrotado de amor, rumo ao Sul. No tempo das tranças, o futuro era o fim-de-semana, o Natal, o dia de anos... O futuro era ... uma espécie de prenda. No tempo das tranças, eu nunca cortava o cabelo. E fazia tranças...

15.4.13

Pai... herói


Lembro-me do meu pai de barba, bigode e uma espécie de turbante na cabeça. Lembro-me de olhar para ele e de o ver - dentro da minha cabeça arrumada num lenço com bonecos de cores - lutar contra tigres da Malásia. Lembro-me de pensar que era um herói. Um Sandokan.

À medida que fui ficando maior do que as roupas que eu vestia e que fui crescendo para além dos meus sapatos, fui percebendo que o meu pai ia diminuindo de tamanho. Mirrando... mirrando... mirrando, até me parecer uma pessoa tão normal como o amola-tesouras da rua ao domingo de manhã. E, dentro da minha cabeça agora maior, deixei de o ver lutar contra tigres da Malásia. Já sem turbante, sem sabre, sem olhos de fera, sem músculos de aço.

Até que parei de ficar maior do que a minha roupa. E os meus sapatos começaram a ficar sempre do mesmo tamanho. Um dia, enquanto, irritada, dizia a pulmões cheios o que pensava sobre tudo o que estava mal em tudo, olhei o meu pai e vi-o gigante outra vez. Sem turbante, sem sabre… mas enorme na sua força, invencível na sua coragem. Para isso, foi preciso primeiro eu perceber de tigres e da Malásia e aprender a usar uma arma. E foi preciso que ele, antes de mim, tivesse usado um turbante, para eu, agora, poder usar o cabelo ao vento!