Todos os dias me chegam fragmentos de desabafos de amigos, conhecidos e desconhecidos do mundo artístico em sério desespero, em falência económica e, mais tristemente ainda, em falência pessoal. São pessoas especiais. Que nasceram com o dom maravilhoso da tradução do sonho. Que dançam, tocam, cantam, pintam, esculpem, representam, olham, vêem, falam e mexem-se, através de um caleidoscópio fabuloso que, quando partilhado connosco, nos faz explodir asas no corpo. São pessoas fantásticas, mágicas... E todos os dias, uma delas desespera, cai por terra - derrotada, seca, estéril. Matam-lhes os sentidos todos, até fazerem delas pó de palco. Pó de sonho. Como se, ao sonho, bastasse juntar água. Todos os dias, amarram-se pés a bailarinas, cortam-se dedos a músicos, estrangulam-se cordas a cantores, partem-se pincéis e escopros, queimam-se telas, envenenam-se cores, rasgam-se cortinas régias...
Todos os dias, uma Alice morre antes de chegar ao País das Maravilhas.
Uma valsa desmaia no primeiro compasso.
E uma pirouette cai tonta, para sempre.
E, qualquer dia, nem o arco-íris tem cor.
Só um arco. Vazio.
A lembrar o lugar, onde, outrora, costumava esconder-se um pote de ouro.

