25.7.16

DÃO DE MIM


Ah, Dão!
Quantas vezes te dizem o nome em vão!
Tão alheios, tão longe do teu milagre estão
Que te passam, sem ver, de tão cegos que são.

Perdão!
Se te esquecem os verdes que lhes vestem a pele
Se te ignoram as uvas e o seu vinho fiel.

Se não sonham que é do vento que lhes nasce uma voz
Que na montanha ecoa como um grito feroz.

Se não sabem dos teus rios, nem sequer para onde vão…
Ignorantes das águas e da sua missão

Se não sentem nos campos sangue que corre quente
E linhas nas vinhas escritas com mão de gente

Ah, Dão!

Não são só as tuas montanhas, os teus vales, os teus rios…
Não são só os teus campos que nunca abandonas vazios
Não é só o teu verde que dá cor à minha Esperança…
Nem é só o teu vento que dentro de mim dança…

É essa tua videira que me abraça uma vida inteira!
E és tu!
Terra e alma do meu avô!
Que me vestes de mim!
Que me dás quem eu sou!


1.5.16

MAIO


Este é o primeiro num mês inteiro
O primeiro dia da vida que se queria
A primeira estrada, o primeiro passo
O primeiro grito da voz do cansaço
A primeira hora dos que acordam cedo
A primeira frase que dizem sem medo
O primeiro compasso que se cansa da espera
O primeiro cravo da nossa Primavera
O primeiro verso, a primeira canção
O primeiro coro de uma convicção
Como do Sol o primeiro raio
Este é o primeiro do mês de Maio

20.4.16

EMBRULHO DE NATAL




Sou do tempo de um Natal modesto em presentes e esbanjador em cheiros quentes.
Sou do tempo dos embrulhos possíveis e dos abraços mágicos mais incríveis.
Sou do tempo das broinhas que eram só da minha avó.
Sou do tempo do rigor a cozinhar cada filhó.
Sou do tempo dos laços toscos a atar cada embrulho.
Sou do tempo da roupa-velha, do tempo do sarrabulho.
Sou do tempo encantado daqueles que já cá não estão,
E da ansieadade de os ver, de toda a excitação.
Da alegria quando chegavam

Dos sacos cheios que carregavam
Sou principalmente do tempo das saudades que eles traziam
Quase tão grandes quanto as saudades que anos depois deixaram.

Há lugares vazios na nossa mesa
Onde se senta sempre a nossa certeza
De que lugar nenhum, por mais que deserto
Cala a Alegria do tio José Alberto.
E que as gargalhadas que outrora ele fazia sempre explodir
Hão-de fazer esta noite à mesa outra geração rir.


E mesmo que a nossa avó já só fale com o olhar
Mesmo que já não se levante para nos ajudar
Mesmo que as broinhas que agora ela faz sejam com as mãos da minha irmã
E que o rigor de cada filhó seja agora o da minha mamã

Eu sei, Tenho a certeza.
Que mesmo sem palavras ela nos está a dizer:
"Que Natal feito de Amor, como o Natal deve ser!"

9.3.16

OLHAR DE SERPENTE



Sabes que a maldade te veio visitar
Porque não conseguiu levantar a cabeça,
Porque não conseguiu estender-te a mão,
Porque não conseguiu olhar-te em frente,
Porque manteve de ti uma distância cobarde.

Percebes que não levantou a cabeça, porque não tem coluna.
Percebes que não te estendeu a mão, porque é rastejante.
Percebes que não te olhou, porque a Luz fere-lhe a visão limitada.
Percebes que não te beijou, porque é venenosa.

E ficou ali, escondida entre a cobardia e a má-fé.
Até que a viste embora. A rastejar à pressa até ao buraco de onde veio.
Onde as sibilantes que fazem o nojo dos seus dias ecoam e fazem sentido.

E ficaste a vê-la ir, Deixou um rasto de escamas nojentas e sem brilho.
Sentiste um misto de alívio e comiseração por forma de vida 
tão tristemente inglória.
Tão tristemente ignóbil.


24.2.16

COLORAÇÃO


O que nos falta é cor!
Daquela que nos veste de alívio a dor
Que nos transborda o vazio de um turbilhão esmagador
Que, na derrota das horas, acorda um dia vencedor
E que, na orfandade de tudo, traz o tudo anterior.

O que nos faz falta é cor!
O amarelo confiante na luz do calor
O azul estonteante da noite sem temor
O verde calmante do apego pacificador
O laranja brilhante do sorriso arrasador

E o vermelho escaldante do Amor!

Um arco-íris que te diz que és feliz...
Porque és cor!