25.6.09

SIMPLEX




Este país não está preparado

para facilitar o complicado.

Para pedir um simples assado

Tens de chamar o empregado

E como não estava programado

Tens de falar com o encarregado


E se o assado for muito urgente

Vai de chamar o sr gerente

Porque isto de ser tão diferente

Não é lá coisa normal de gente.

Só por tentares ser inteligente

Vais acabar por ficar demente.


Este país fica baralhado,

Se não assinares um tratado

Para ficares de pé em vez de sentado.

E se preferes ficar de lado,

Então é que está tudo estragado.

Se és pontual em vez de atrasado,

Tens o teu caldo todo entornado.


Não desesperes, tem calma, relaxa!

O empregado pode estar de baixa!

O encarregado pode ter casado!

E o gerente já estar reformado!

Ou talvez, antes de te dizer não,

o país feche para manutenção!

10.6.09

LISBOA CANTAT




Por trás de um veludo de sangue

E antes que a voz se zangue

Espreita um metro e meio bilingue

E cada nota que o distingue


Enfrenta o público a medo

Cada passo pisa um segredo

Que só vê quem está mesmo atento

E merece cada momento


Avança de mãos na cintura

Cresce metros e metros de altura

E a estatura, insignificante

Faz-se grande, enorme, gigante.


Bem lá dentro da canção que canta,

Há uma voz para além da garganta:

Um grito que quase atraiçoa,

Aflito na alma que ecoa.


Um pardal que levanta e voa

E embora pequeno apregoa:

à conquista do Oeste, Lisboa!

5.6.09

PAIN KILLER


 

Se gemo, diz-se poderosa.

Se tremo, gaba-se famosa.

Se choro, ainda me goza.

Se esmoreço, fica orgulhosa!


Se resisto, nem sequer aprova.

Se nego, atira-me a prova.

Se me ergo, abre-me uma cova.

Se a mato, ainda se renova.


Se eu soubesse como a prender...

Se eu pudesse fazê-la perder...

Juro que antes desta dor me doer...

Ia ensiná-la primeiro a sofrer!