29.11.09

WAKE-UP CALL




Não suporto este acordar
com o peito estéril de ar
e a certeza de morrer,
sem chegar a perceber,
se um dia ia poder.

Com este sabor nojento
que azeda o que aparento
Como um bobo da corte
que se ri até à morte
da sua própria sorte.

Ou como aquele infeliz
que, apesar do que se diz,
vive constantemente
à espera que o mundo rebente
uma verdade que o desmente.

É um instante breve
que, no entanto, se atreve
a violar o meu juízo
a roubar-me o chão que piso.
E de repente, paraliso.

E, nestes segundos que passam,
os meus olhos não te abraçam,
não importa o que os teus façam.

12.11.09

IN ILLO TEMPORE





Tenho saudades, tantas vezes

de outras idades, de outros meses.

De muitos Natais, de uma lareira

e dos meus pais, à cabeceira.

Sinto a mesma falta que a gente sente

daquela malta irreverente,

quando o juízo nos toma conta

e sem aviso, nos desaponta.



É uma azia em jeito de dó

a casa vazia da minha avó.

E o limoeiro abandonado

raiz num canteiro todo rachado.

Ainda recordo como era antes

e ainda acordo de olhos distantes.

E de repente, faz-me companhia

a cevada quente que ela me fazia.



Tenho ainda a memória fresca

dos dias de rio, do meu pai na pesca.

Da avidez de cada verão,

de jogar xadrez com o meu irmão.

E que inesquecível é também

o bolo de figo da minha mãe.


Naquele tempo, não sei o que havia,
mas tínhamos todos aquela magia
dos que, apesar das dificuldades,
durante esta vida, deixam saudades.