25.10.06

Depois da tempestade....












































... os céus da bonança.

Na noite passada, voltei a ter medo do vento, como em criança. Costumava chamar a minha mãe para vir pôr uns calços de papel na janela de madeira, para que ela não batesse tanto. O barulho cessava e eu suspirava de alívio. É que... antes dos calços... parecia mesmo que era alguém a tentar arrombá-la. E por muitas canções que eu cantasse cada vez mais alto, simplesmente não conseguia dormir.

Na noite passada, voltei a ter medo do escuro como em criança. Costumava chamar a minha mãe para deixar a porta semi-aberta e deixar entrar um bocadinho de luz. A luz entrava e eu suspirava de alívio. É que... antes da luz... aquele vulto do meu robe pendurado atrás da porta parecia mesmo mesmo um homem a olhar para mim, à espera que eu adormecesse.

Na noite passada, voltei a chorar por causa da trovoada. Costumava pedir à minha mãe para se deitar um bocadinho comigo, só até ela passar. Ela deitava-se e abraçava-me cada vez que o relâmpago rasgava o céu. Quando chegava o trovão, já nos ríamos as duas do susto. É que... antes de ela se deitar... parecia mesmo mesmo que o trovão ia cair em cima de mim.

Na noite passada, morri de medo outra vez como antigamente. Só que, desta vez, tive de ganhar coragem para me levantar, fechar as janelas, deixar a porta aberta e a luz acesa. Cantei uma ou duas músicas quase alto. A minha mãe não se veio deitar ao pé de mim... mas, corada, confesso: juro que fiz de conta. Falei com ela e até soltei uma gargalhada. E faria qualquer coisa ... para acreditar que ela estava outra vez ali.

23.10.06

Simplesmente Maria...
Parte II





















Era dia 28 de um Janeiro que já vai ficando longe.
O século XX ia quase a meio e estava em guerra.
Preparava-se para usar saias rodadas, rabo de cavalo e descobrir o rock n' roll, assim que o pesadelo acabasse.
Num quarto da Cerca de S. Bernardo, nascia mais uma Maria na Terra, porque nessa altura era preciso ter dinheiro para nascer na Maternidade.
Num Verão de menina e moça na Figueira da Foz, conheceu pela primeira vez o amor e ficou convencida.
Anos depois, entrou na Igreja de Santa Cruz.
Largou, confiante, o braço do pai e abraçou, confiante, o do jovem galã, vestido de oficial.
Foi mãe muitas vezes e, de todas as vezes, foi como se fosse a primeira.
Hoje é a avó de todos os netos, mesmo dos que não são dela.
E mãe da própria mãe.
Imprescindível, insubstituível e eternamente linda.
Muitos me dizem que tenho a graça e a simpatia dela. E fico vaidosa e feliz.
Mas o que eu queria mesmo era ter a força que ela tem.
Dizem que mãe há só uma.
É a minha, de certeza.

20.10.06

Missão cumprida.

Éramos muitos.
Durante aqueles minutos, unimo-nos incondicionalmente.
No fim, um alívio, um sorriso orgulhoso... e uma lágrima no canto do olho.


Contrariada, arrumo o traje outra vez...
E o resto também.
Como um luto que não acaba nunca mais.

Por ti.... Sempre!




18.10.06

Gosto tanto de ti, que até te dói...





Há pessoas que nos querem tanto, tanto bem, que até nos fazem mal.
Que, de tanto nos quererem abraçar, nos esmagam.
Que, de tanto nos quererem beijar, nos cospem.
Que, de tanto nos quererem amparar, nos atiram ao chão.

Que nos dão uma caixa de doces, mas só lhes dermos duas.
Que nos oferecem flores, mas só se lhes plantarmos uma árvore.
Que nos estendem a mão no precipício, mas só se nos puderem algemar.

Há pessoas que, de tanto nos amarem, nos odeiam.

Tenho de perder esta mania de dar a outra face.
Hoje há missa...






























às nove e meia na Capela da Universidade de Coimbra.

14.10.06

shhhhhh.....



A propósito de uma daquelas conversas sinceras e frontais que nos permitimos ter apenas com quem nos quer bem, vi-me obrigada a repensar o que tenho dito e o que tenho feito.

Gosto que me chamem à razão com emoção sincera.

Gosto que me apontem o dedo com carinho.

Gosto que me toquem na ferida para a ajudar a sarar.

Hoje aconteceu...

Fizeram-me pensar... e eu pensei.

"Tens razão. Obrigada."

Apesar disso, não resisti brincar e lembrar uma canção que cantei em tempos.

Cantava-se assim:

"Eu vou tentar, prometo,

que destes versos

não saia uma canção mal-comportada.

Eu vou tentar não falar

do que acontece.

Eu vou tentar falar, sem dizer nada."

13.10.06

Alzeihmer é....

quando a tua avó de 84 anos te trata pela primeira vez por você e diz:
"Tem visto a minha mãe? Há tanto tempo que não a vejo..."
Na perplexidade do momento, é díficil saber o que responder.
Uns defendem que se deve chamar a atenção para a realidade.
Que é preciso adiar o mais possível a demência.
Que é urgente ajudar a manter o contacto com o quotidiano, com os rituais.
Que é pedagógico e terapêutico corrigir os erros.
Que não se deve potenciar comportamentos de ausência e alienação.
Curioso... A mim, só ocorre fazê-la feliz.
Por isso, respondi:
"Ela já vem´, 'vó. Ela já vem."

6.10.06

AAAAAHHHHHHHHHH!!!!!!!

Edvard Munch, Skrik

Há dias assim... Que nos enchem o peito de um ar fétido que apetece fazer explodir num grito.
Mas, de repente, percebemos que são tantas as coisas que fomos calando, tantos os panos quentes que fomos usando e tantos os pézinhos de lã com que fomos andando.... que, mesmo gritando, já nada saíria.
Lembro-me sempre daquela vez que, em criança, fiquei agarrada a um candeeiro na mesa de cabeceira. O meu primeiro choque eléctrico.
Ouvia a voz da minha mãe mesmo ali ao lado, no corredor, e gritei por ajuda.
Gritei com todas as forças, até sentir as cordas vocais quase a sangrar. Não saiu nem um som. Nada. Acho que foi a primeira vez que me senti verdadeiramente só.
Felizmente, naquela altura, durou apenas alguns segundos.

Hoje é um desses dias. Apetece-me gritar.
Mas não vale a pena.

Mesmo ouvindo a voz da minha mãe ali ao lado e a de todos os outros também....

Até um grito precisa de uma desculpa para sair. E a minha, já perdeu a validade.
Surpresa


Foi assim, por acaso, o ocaso do meu aniversário.

Como um presente que já não se espera, nem se pressente.

Como um beijo inesperado de um namorado que nos desespera.

Como a mão quente de alguém ausente que um dia chega

e fica para sempre...