Tenho cantos de mim que querem desistir
Escondidos num escuro de onde não sabem sair
Tenho cantos de mim que não sabem falar
Silêncios de vida que se ouvem mais sem gritar
Tenho cantos de mim aninhados em nada
Como peregrinos que, afinal, recusam a estrada
Tenho cantos que se encolhem numa espécie de torpor
Como se anestesia fosse o seu único Amor
E tenho cantos em esquinas do meu coração
Que, por falta de luz, escapam à multidão
São cantos que espreitam, de vez em quando, "lá fora"
Que se arrependem de, uma vez, terem ido embora
Às vezes, espreguiçam de braços abertos
Mas, no caminho, encontram tantos braços desertos
Que recolhem outra vez, à espera de um dia
Em que um canto diferente lhes prove que, afinal, há melodia.
