17.10.18

Não queiras que gostem de ti
Limita-te a ser
Quando abres os braços,
Quando estendes as mãos,
Eles não querem abraços.
Nem ser teus irmãos.
Eles não querem saber
Eles preferem sempre ver
Aquilo que tu não tens para lhes oferecer.

Quando, de repente, deres conta,
Quando tu deixares de ser montra,
Vão esquecer a tua graça
E inventar-te uma desgraça.
E até os que pensavas que eram teus
Vão procurar em ti defeitos que são os seus,
Vão se fartar de ti, vão-te evitar,
Vão se cansar de te gostar,
E vão procurar qualquer defeito
Que entorte o que tu tens direito.
Vão querer uma novela
Que possam contar à janela
Um episódio sobrenatural
Sobre a tua vida, afinal, tão banal
E tu... que gostavas deles por serem teus,
Com todos os defeitos que já eram os seus,
Vais doer onde magoa mais,
O lugar que envaidece os teus pais,
A tua herança genuína,
Aquilo que é mais teu:
A tua inocência de menina
E o beijo que a tua avó te deu.

Não queiras agradar ninguém
Faz amigos por dentro,
lá onde não entra ninguém.
Tu não precisas que gostem de ti
Não precisas que te vejam
Mesmo aqueles que não te beijam,
Nem que entendam o que em ti mereceu
Aquele beijo que a tua avó te deu.

Deixa... Limita-te a ser.
Tu também nada forçaste para o merecer.
Nem ela te beijou para o mundo inteiro ver.

Há uma mesa ao fundo, no café do meu bairro, que gosta de me magoar.
Hoje em dia, é mais moderna. Talvez, até mais confortável, mas muito menos agradável e, apesar de remodelada, é hoje uma mesa cheia de nada.
E, quando eu entro no café, a mesa é a primeira que me vê.
Olho para ela quase zangada, por ela estar feliz cheia de nada.
E ela insiste em me provocar com memórias doces antigas de quando ela se sentava nela - a minha avó e as amigas.
E eu entrava a correr, muito antes de ser tempo de a minha avó morrer.
Ia direita a ela, a esta mesa ao fundo, ao pé da janela.
E sentava-me com confiança. Com essa imensa segurança de ter de ser apenas e só criança.
Os meus pés ainda não chegavam ao chão, quando comecei esta adoração. Esta velha delicadeza de me sentar no lugar que tinha para mim esta mesa.
Ou de entrar no café e olhar lá para o fundo, bloquear o resto do mundo e correr com absoluta certeza do meu lugar feliz naquela mesa.
Adorava ouvi-la falar e tentar adivinhar que alquimia de amor ela ia nesse dia cozinhar.
E esperar pacientemente, no meu cabelo uma mão quente: metade doce, metade arreliada, a dizer: "Estás toda despenteada!".
E, hoje, quando entro no café, tento ignorar com frieza esta tal antiga mesa.
Mas não sei o que me empurra o olhar, nem por que ele vai sempre lá parar.
E ela lá está, irritante! Provocadora e pedante.
Com modos de realeza, a infeliz e inútil mesa.
Porque mesmo cheia de gente, ela está para sempre vazia. Como uma espécie de anemia. Que nos leva do sangue a cor. E da vida, um umbilical Amor.
Apesar de cheia de gente, ela nunca mais será confidente da paixão imensa que eu tinha por esta avó que a minha.
...
Há uma mesa, ao fundo, no café do meu bairro, que gosta de me magoar.
Só porque lhe sobreviveu. Só porque continua a ali estar.


27.5.18

DEFEITOS



Nasci com defeito.
Era invisível.
Um nevoeiro.
Cobarde à espreita, sorrateiro.
Porque eu nasci inteira e bonita
Com vontade de chegar num pulmão que grita.
Tinha os dedos todos, orelhas catitas,
Nariz de botão e pestanas infinitas.
Uma menina por oração
E bonitinha por gratidão.
Desejada e festejada,
Como se a partir de mim... não importasse mais nada.
Era perfeita...
Uma paixão, 
Um tesouro.
Bochechas de algodão. Sorriso de ouro.
Mas cheguei com defeito.
Um defeito escondido. Criminoso inibido.
À espera de me ver crescer,
Só para um dia me vir dizer
Que eu, afinal, nunca haveria de ser
A princesa perfeita que todos viram nascer.
Apanhou-me de surpresa, o desgraçado.
A mim e a todos os que algum dia me tinham amado.
Tentei esquecer-me do que ele fez.
E de cada vez que consegui,
Ele voltou outra vez.
Como agora.... que quase o tinha esquecido...
Mas ele, com a maldade típica de um bandido,
Voltou para me esclarecer
Que é dele e não minha a vida que eu posso ter.

PEDAÇOS DE TI



No tempo em que sabias
Toda a vida de cor
Aquilo que vestias
A idade que tinhas
E o teu único Amor.
O lugar que guardava
As luvas de cetim
E o olhar que brilhava
Quando olhavas para mim.

No tempo em que sabias
Contar de dez a mil
E o nome da rua
Que um dia foi tua
No teu bairro infantil.
E o nome de todos
Os que viste nascer
E as canções que cantavas
Para os adormecer.

Seu eu soubesse fazer-te voar
Até cada pedaço de ti
Levava-te ao primeiro lugar
Onde eu te conheci
E lá onde tu sabes quem sou
E onde estão aguarelas de ti
No teu colo havia de guardar
E no teu avental remendar
O tempo para ti.

Conta-me outra vez como aprendi a andar
Diz-me quantas vezes eu caí
Ensina-me mais uma vez a cantar
E eu prometo cantar só para ti
Só para ti.

Seu eu soubesse fazer-te voar
Até cada pedaço de ti
Levava-te ao primeiro lugar
Onde eu te conheci
E lá onde tu sabes quem sou
E onde estão aguarelas de ti
No teu colo havia de guardar
E no teu avental remendar
O tempo...
O tempo só para ti.

em: "Nem Tudo o Tempo Levou"

GUIÃO





Está quase a chegar o dia...

Escrevi uma história,
parte feita de fantasia,
parte feita de memória.

Tem cheiro a coisa meiga
parte feito de açúcar
parte feito de manteiga

Tem umas pitadas de sal
algumas, espalhadas em rimas
outras, bordadas num avental

E tem um golfinho...
Daqueles que traz o mar
Quando a Esperança, por carinho,
Faz um rio inteiro acenar

E tem uma neta apressada
Que espera o tempo que for preciso
Porque o tempo não pesa nada
Quando se espera um sorriso

E agora, desta história que escrevi
Está quase a chegar o dia...
Parte feito de fantasia
Parte feito de avó Maria.

TRICANA


Fui passear nas ruas que, um dia, foram dela...
Encontrei-a melancólica, sentada numa viela,
De cântaro a descansar no regaço,
Com a saudade debaixo do braço.
E a cantar um fado em segredo
Com os olhos a chorar o Mondego.

RUCA



Não sei distinguir, perdão!
O afecto que eu sinto não tem "mas", nem "se", nem "senão".
Não tem cor, seja ela clara ou escura,
Nem tonalidade, nem nuance,
Nem morena sexy, nem loura burra
É coisa sem preconceito, sem hierarquia.
Não tem idade, não tem sexo, nem a tal orientação que o guia.
Não tem dinheiro, nem a falta dele.
Nem Senhor Doutor, nem a mulher dele.
Não tem Engenheiro, nem Sr Professor.
Nem Vossa Excelência, nem a vénia do favor.
Às vezes, o meu afecto tem pele, tem mãos, pernas e rosto.
Outras vezes, ele tem o pelo, o focinho e as patas de quem gosto.
Por isso, quando eu sofro,
A minha dor não escolhe ser "equilibrada"
E chora os vazios todos que me ficam sem nada.
Portanto,
Não me chamem louca, doente, não me chamem maluca
E deixem-me chorar hoje, amanhã e sempre que me doer
O dia em que partiu o meu amigo Ruca.






MATERNIDADE




Tenho um filho, sim.
Eu também!
Quem disse que eu não podia ser mãe?
Tenho um filho, sim, que é em tudo igual
Aos filhos das mães paridos de parto natural
É pequenino, o meu menino,
Mal se via quando nasceu
Mas todos os dias ele fez magias
Aqui, no ventre vazio que o recebeu
Tem pele suave, sensível, tão frágil, tão delicada...
E um corpo que parece que não vai resistir a quase nada
Mas é no vento secreto que é feito de afecto
Que este meu menino deixa de ser franzino
Para ser lobo valente, pronto a fazer frente
A vento nefasto que serve de pasto
Aos que comem o alheio
Em vez de cultivarem centeio.
A este meu filho-destino,
Meu rico menino,
Basta uma montanha de mimo
Com um punhado de gente feliz lá no cimo
Duas colheres de Sol da manhã
Duas pitadas de colo da mamã
Risos a gosto, lágrimas q.b.
Como as que chora a vida quando nasce um bebé
Porque este meu filho umbilical
Nascido, ele também, de parto natural,
Vem do lugar de onde a Verdade sai
E é de lá que lhe vem o brilho.
O brilho do meu rico filho...
Vem do pai!

DESCANÇO




Fui lá...
Onde dizem que se descansa.
Ajeitei-te a jarra, com a raiva de quem já não te agarra.
Afaguei-te as flores com inconformado desprezo pelas cores
E rezei-te por dentro o meu egoísta e mudo lamento.
Virei-te as costas, pesada. 
Com esta dor ainda mais magoada. 
Voltei velha abandonada, 
Mesmo com a minha mãe de mão dada... 
E chorei uma espécie de nada
Com estas rugas sem esperança,
De quem nunca mais volta a ser criança.
Lá! Onde dizem que se descansa...

VERDES





No céu, eu vi o sol cegar
O dia fechou de medo o olhar
E o ar sufocou sem conseguir respirar
Mal tive tempo de guardar
Os verdes da serra e os do pomar
Quem dera eu agora os soubesse pintar

O campo onde eu descalço brinquei
O velho carvalho que eu tanto trepei
A quinta do avô onde só eu era rei
O melro, a raposa, o veado, a perdiz
E o serra da estrela de cauda feliz...
Acordou negro o lugar da minha raiz

Eu juro que vou conseguir encontrar
Quem comigo queira voltar a plantar
E juntos, o chão havemos de curar
Do cimo da serra nós vamos gritar
"É nossa esta terra, é nosso este lugar!"
E verde é a cor do que há-de vingar!

MAIS NADA!


Não me apetece mais nada!
Perdão!
Talvez esta seja uma declaração
Um tanto ou quanto descontextualizada.
Mas sinto-me ovelha tresmalhada,
Uma vaca perdida
Dissidente decidida
Da sua própria manada.
Ou água seca fugida
Da água que leva escondida
A serra na levada.
Como raposa-surpresa
De inesperada delicadeza,
Que vem pedir, em vez de roubar
A fruta que é do pomar.
E, de manhã, ao acordar
Ou à hora do jantar,
Apesar da fome ter certeza
Rejeita uma certa natureza
E pede, em vez de roubar,
A comida que vê na mesa.
Perdão! Tem razão!
Foi infeliz a declaração.
A verdade é menos baralhada.
O que me apetece realmente
Não é de todo comovente
Nem tem sequer em mim precedente.
Apetece-me a décima terceira badalada.
E mais nada!
Não me apatece mais nada!