17.10.18

Há uma mesa ao fundo, no café do meu bairro, que gosta de me magoar.
Hoje em dia, é mais moderna. Talvez, até mais confortável, mas muito menos agradável e, apesar de remodelada, é hoje uma mesa cheia de nada.
E, quando eu entro no café, a mesa é a primeira que me vê.
Olho para ela quase zangada, por ela estar feliz cheia de nada.
E ela insiste em me provocar com memórias doces antigas de quando ela se sentava nela - a minha avó e as amigas.
E eu entrava a correr, muito antes de ser tempo de a minha avó morrer.
Ia direita a ela, a esta mesa ao fundo, ao pé da janela.
E sentava-me com confiança. Com essa imensa segurança de ter de ser apenas e só criança.
Os meus pés ainda não chegavam ao chão, quando comecei esta adoração. Esta velha delicadeza de me sentar no lugar que tinha para mim esta mesa.
Ou de entrar no café e olhar lá para o fundo, bloquear o resto do mundo e correr com absoluta certeza do meu lugar feliz naquela mesa.
Adorava ouvi-la falar e tentar adivinhar que alquimia de amor ela ia nesse dia cozinhar.
E esperar pacientemente, no meu cabelo uma mão quente: metade doce, metade arreliada, a dizer: "Estás toda despenteada!".
E, hoje, quando entro no café, tento ignorar com frieza esta tal antiga mesa.
Mas não sei o que me empurra o olhar, nem por que ele vai sempre lá parar.
E ela lá está, irritante! Provocadora e pedante.
Com modos de realeza, a infeliz e inútil mesa.
Porque mesmo cheia de gente, ela está para sempre vazia. Como uma espécie de anemia. Que nos leva do sangue a cor. E da vida, um umbilical Amor.
Apesar de cheia de gente, ela nunca mais será confidente da paixão imensa que eu tinha por esta avó que a minha.
...
Há uma mesa, ao fundo, no café do meu bairro, que gosta de me magoar.
Só porque lhe sobreviveu. Só porque continua a ali estar.


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