29.4.09

CINZAS




Abri hoje esta janela
Como se acendesse uma vela
E enfrentei o que olhei
Vi de frente e não gostei
Percebi mesmo agora
Quando olhei lá para fora
Que não gosto de cinzento

Detesto esse lamento
de um dia pardacento
Odeio esse momento
em que o sol chama o vento
e se encolhe para dentro

Desprezo o frio e a chuva
Esta vista parca e turva
Dos dias em nevoeiro
E se fosse baladeiro
Cantava ao mundo inteiro
Dias de cor amarela
Em que o sol se fez vela
e queimou esta janela



25.4.09

QUEM ÉS?



Tu sabes ,
Sabes fazer como nunca alguém fez,
Cobres de honra a minha nudez
Adoças o fel da minha estupidez
Desculpas-me até a minha altivez

E lês
Lês-me páginas cheio de avidez
Do livro que sou, daquilo que vês
Ensinas palavras à minha mudez
E amas-me assim, sem quês, nem porquês

E crês
Na loucura da minha lucidez
Calas os erros do meu portugês
Cantas as frases da minha gaguez
E pintas de cor a minha palidez

E vês
Aquilo que escondo com tal nitidez
Que coro de espanto a minha timidez
Que canto e esqueço a minha surdez
Que descanso o cansaço e durmo de vez

Tu sabes,
Tu sabes quem és...
És a vida que rasga a minha aridez
És mil vezes tudo e tudo outra vez
Tu sabes...
Tu sabes quem és!



22.4.09

SILÊNCIO


(recovered)


Tenho andado seca

de costas voltadas a Meca.

Tenho andado muda

sem voz, grave ou aguda,

sem eira, nem beira ou ajuda,

sem ninguém que venha e me acuda.


Tenho andado cega

de olhos abertos , mas cega,

de tanto ver sem querer.

E de tanto querer sem poder,

tenho andado roxa e coxa...

E chega!




20.4.09

SÚPLICA





Mata de mentiras ou mata de erros.

Mata-me de lapsos, enganos e venenos.

Mata de desculpas com boas intenções.

Mata-me de culpas cheias de omissões.




Mata-me com cordas, facadas e ferros

Mas mata com golpes certeiros, ao menos.

Mata-me na forca ou na guilhotina

Mata-me de fome ou de dor sem morfina.




Mata o que resta do chão nos meus pés

Mas acaba-me já,

mata-me de uma vez!