27.5.18

DEFEITOS



Nasci com defeito.
Era invisível.
Um nevoeiro.
Cobarde à espreita, sorrateiro.
Porque eu nasci inteira e bonita
Com vontade de chegar num pulmão que grita.
Tinha os dedos todos, orelhas catitas,
Nariz de botão e pestanas infinitas.
Uma menina por oração
E bonitinha por gratidão.
Desejada e festejada,
Como se a partir de mim... não importasse mais nada.
Era perfeita...
Uma paixão, 
Um tesouro.
Bochechas de algodão. Sorriso de ouro.
Mas cheguei com defeito.
Um defeito escondido. Criminoso inibido.
À espera de me ver crescer,
Só para um dia me vir dizer
Que eu, afinal, nunca haveria de ser
A princesa perfeita que todos viram nascer.
Apanhou-me de surpresa, o desgraçado.
A mim e a todos os que algum dia me tinham amado.
Tentei esquecer-me do que ele fez.
E de cada vez que consegui,
Ele voltou outra vez.
Como agora.... que quase o tinha esquecido...
Mas ele, com a maldade típica de um bandido,
Voltou para me esclarecer
Que é dele e não minha a vida que eu posso ter.

PEDAÇOS DE TI



No tempo em que sabias
Toda a vida de cor
Aquilo que vestias
A idade que tinhas
E o teu único Amor.
O lugar que guardava
As luvas de cetim
E o olhar que brilhava
Quando olhavas para mim.

No tempo em que sabias
Contar de dez a mil
E o nome da rua
Que um dia foi tua
No teu bairro infantil.
E o nome de todos
Os que viste nascer
E as canções que cantavas
Para os adormecer.

Seu eu soubesse fazer-te voar
Até cada pedaço de ti
Levava-te ao primeiro lugar
Onde eu te conheci
E lá onde tu sabes quem sou
E onde estão aguarelas de ti
No teu colo havia de guardar
E no teu avental remendar
O tempo para ti.

Conta-me outra vez como aprendi a andar
Diz-me quantas vezes eu caí
Ensina-me mais uma vez a cantar
E eu prometo cantar só para ti
Só para ti.

Seu eu soubesse fazer-te voar
Até cada pedaço de ti
Levava-te ao primeiro lugar
Onde eu te conheci
E lá onde tu sabes quem sou
E onde estão aguarelas de ti
No teu colo havia de guardar
E no teu avental remendar
O tempo...
O tempo só para ti.

em: "Nem Tudo o Tempo Levou"

GUIÃO





Está quase a chegar o dia...

Escrevi uma história,
parte feita de fantasia,
parte feita de memória.

Tem cheiro a coisa meiga
parte feito de açúcar
parte feito de manteiga

Tem umas pitadas de sal
algumas, espalhadas em rimas
outras, bordadas num avental

E tem um golfinho...
Daqueles que traz o mar
Quando a Esperança, por carinho,
Faz um rio inteiro acenar

E tem uma neta apressada
Que espera o tempo que for preciso
Porque o tempo não pesa nada
Quando se espera um sorriso

E agora, desta história que escrevi
Está quase a chegar o dia...
Parte feito de fantasia
Parte feito de avó Maria.

TRICANA


Fui passear nas ruas que, um dia, foram dela...
Encontrei-a melancólica, sentada numa viela,
De cântaro a descansar no regaço,
Com a saudade debaixo do braço.
E a cantar um fado em segredo
Com os olhos a chorar o Mondego.

RUCA



Não sei distinguir, perdão!
O afecto que eu sinto não tem "mas", nem "se", nem "senão".
Não tem cor, seja ela clara ou escura,
Nem tonalidade, nem nuance,
Nem morena sexy, nem loura burra
É coisa sem preconceito, sem hierarquia.
Não tem idade, não tem sexo, nem a tal orientação que o guia.
Não tem dinheiro, nem a falta dele.
Nem Senhor Doutor, nem a mulher dele.
Não tem Engenheiro, nem Sr Professor.
Nem Vossa Excelência, nem a vénia do favor.
Às vezes, o meu afecto tem pele, tem mãos, pernas e rosto.
Outras vezes, ele tem o pelo, o focinho e as patas de quem gosto.
Por isso, quando eu sofro,
A minha dor não escolhe ser "equilibrada"
E chora os vazios todos que me ficam sem nada.
Portanto,
Não me chamem louca, doente, não me chamem maluca
E deixem-me chorar hoje, amanhã e sempre que me doer
O dia em que partiu o meu amigo Ruca.






MATERNIDADE




Tenho um filho, sim.
Eu também!
Quem disse que eu não podia ser mãe?
Tenho um filho, sim, que é em tudo igual
Aos filhos das mães paridos de parto natural
É pequenino, o meu menino,
Mal se via quando nasceu
Mas todos os dias ele fez magias
Aqui, no ventre vazio que o recebeu
Tem pele suave, sensível, tão frágil, tão delicada...
E um corpo que parece que não vai resistir a quase nada
Mas é no vento secreto que é feito de afecto
Que este meu menino deixa de ser franzino
Para ser lobo valente, pronto a fazer frente
A vento nefasto que serve de pasto
Aos que comem o alheio
Em vez de cultivarem centeio.
A este meu filho-destino,
Meu rico menino,
Basta uma montanha de mimo
Com um punhado de gente feliz lá no cimo
Duas colheres de Sol da manhã
Duas pitadas de colo da mamã
Risos a gosto, lágrimas q.b.
Como as que chora a vida quando nasce um bebé
Porque este meu filho umbilical
Nascido, ele também, de parto natural,
Vem do lugar de onde a Verdade sai
E é de lá que lhe vem o brilho.
O brilho do meu rico filho...
Vem do pai!

DESCANÇO




Fui lá...
Onde dizem que se descansa.
Ajeitei-te a jarra, com a raiva de quem já não te agarra.
Afaguei-te as flores com inconformado desprezo pelas cores
E rezei-te por dentro o meu egoísta e mudo lamento.
Virei-te as costas, pesada. 
Com esta dor ainda mais magoada. 
Voltei velha abandonada, 
Mesmo com a minha mãe de mão dada... 
E chorei uma espécie de nada
Com estas rugas sem esperança,
De quem nunca mais volta a ser criança.
Lá! Onde dizem que se descansa...

VERDES





No céu, eu vi o sol cegar
O dia fechou de medo o olhar
E o ar sufocou sem conseguir respirar
Mal tive tempo de guardar
Os verdes da serra e os do pomar
Quem dera eu agora os soubesse pintar

O campo onde eu descalço brinquei
O velho carvalho que eu tanto trepei
A quinta do avô onde só eu era rei
O melro, a raposa, o veado, a perdiz
E o serra da estrela de cauda feliz...
Acordou negro o lugar da minha raiz

Eu juro que vou conseguir encontrar
Quem comigo queira voltar a plantar
E juntos, o chão havemos de curar
Do cimo da serra nós vamos gritar
"É nossa esta terra, é nosso este lugar!"
E verde é a cor do que há-de vingar!

MAIS NADA!


Não me apetece mais nada!
Perdão!
Talvez esta seja uma declaração
Um tanto ou quanto descontextualizada.
Mas sinto-me ovelha tresmalhada,
Uma vaca perdida
Dissidente decidida
Da sua própria manada.
Ou água seca fugida
Da água que leva escondida
A serra na levada.
Como raposa-surpresa
De inesperada delicadeza,
Que vem pedir, em vez de roubar
A fruta que é do pomar.
E, de manhã, ao acordar
Ou à hora do jantar,
Apesar da fome ter certeza
Rejeita uma certa natureza
E pede, em vez de roubar,
A comida que vê na mesa.
Perdão! Tem razão!
Foi infeliz a declaração.
A verdade é menos baralhada.
O que me apetece realmente
Não é de todo comovente
Nem tem sequer em mim precedente.
Apetece-me a décima terceira badalada.
E mais nada!
Não me apatece mais nada!