19.5.12

OLHARES


  
Com uma punhalada fria, Alguém decidiu um dia
que eu nunca, JAMAIS, haveria
de ver, nos olhos de alguém,
brilharem os meus olhos de mãe.

E perante tamanha avaria, fiz aquilo que devia:
dei rodas à paralisia e um peito aberto à agonia;
da apatia fiz coreografia
e ao meu nada, dei demografia.

Levei a dor à fisioterapia;
dei um carrocel à nostalgia;
enchi o vazio de toda a mordomia;
fiz cócegas à minha apatia
e dei uma história à minha biografia.

E foi com enorme ironia que,
no meio desta correria,
e com a precisão de uma cirurgia,
vi, nos olhos de quem eu mais queria,
brilharem os meus olhos de tia.