20.4.16
EMBRULHO DE NATAL
Sou do tempo de um Natal modesto em presentes e esbanjador em cheiros quentes.
Sou do tempo dos embrulhos possíveis e dos abraços mágicos mais incríveis.
Sou do tempo das broinhas que eram só da minha avó.
Sou do tempo do rigor a cozinhar cada filhó.
Sou do tempo dos laços toscos a atar cada embrulho.
Sou do tempo da roupa-velha, do tempo do sarrabulho.
Sou do tempo encantado daqueles que já cá não estão,
E da ansieadade de os ver, de toda a excitação.
Da alegria quando chegavam
Dos sacos cheios que carregavam
Sou principalmente do tempo das saudades que eles traziam
Quase tão grandes quanto as saudades que anos depois deixaram.
Há lugares vazios na nossa mesa
Onde se senta sempre a nossa certeza
De que lugar nenhum, por mais que deserto
Cala a Alegria do tio José Alberto.
E que as gargalhadas que outrora ele fazia sempre explodir
Hão-de fazer esta noite à mesa outra geração rir.
E mesmo que a nossa avó já só fale com o olhar
Mesmo que já não se levante para nos ajudar
Mesmo que as broinhas que agora ela faz sejam com as mãos da minha irmã
E que o rigor de cada filhó seja agora o da minha mamã
Eu sei, Tenho a certeza.
Que mesmo sem palavras ela nos está a dizer:
"Que Natal feito de Amor, como o Natal deve ser!"
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