24.2.15




Todos os dias me chegam fragmentos de desabafos de amigos, conhecidos e desconhecidos do mundo artístico em sério desespero, em falência económica e, mais tristemente ainda, em falência pessoal. São pessoas especiais. Que nasceram com o dom maravilhoso da tradução do sonho. Que dançam, tocam, cantam, pintam, esculpem, representam, olham, vêem, falam e mexem-se, através de um caleidoscópio fabuloso que, quando partilhado connosco, nos faz explodir asas no corpo. São pessoas fantásticas, mágicas... E todos os dias, uma delas desespera, cai por terra - derrotada, seca, estéril. Matam-lhes os sentidos todos, até fazerem delas pó de palco. Pó de sonho. Como se, ao sonho, bastasse juntar água. Todos os dias, amarram-se pés a bailarinas, cortam-se dedos a músicos, estrangulam-se cordas a cantores, partem-se pincéis e escopros, queimam-se telas, envenenam-se cores, rasgam-se cortinas régias... 
Todos os dias, uma Alice morre antes de chegar ao País das Maravilhas. 
Uma valsa desmaia no primeiro compasso. 
E uma pirouette cai tonta, para sempre. 
E, qualquer dia, nem o arco-íris tem cor. 
Só um arco. Vazio. 
A lembrar o lugar, onde, outrora, costumava esconder-se um pote de ouro.

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