12.11.09

IN ILLO TEMPORE





Tenho saudades, tantas vezes

de outras idades, de outros meses.

De muitos Natais, de uma lareira

e dos meus pais, à cabeceira.

Sinto a mesma falta que a gente sente

daquela malta irreverente,

quando o juízo nos toma conta

e sem aviso, nos desaponta.



É uma azia em jeito de dó

a casa vazia da minha avó.

E o limoeiro abandonado

raiz num canteiro todo rachado.

Ainda recordo como era antes

e ainda acordo de olhos distantes.

E de repente, faz-me companhia

a cevada quente que ela me fazia.



Tenho ainda a memória fresca

dos dias de rio, do meu pai na pesca.

Da avidez de cada verão,

de jogar xadrez com o meu irmão.

E que inesquecível é também

o bolo de figo da minha mãe.


Naquele tempo, não sei o que havia,
mas tínhamos todos aquela magia
dos que, apesar das dificuldades,
durante esta vida, deixam saudades.

 

1 comentário:

João disse...

É a velha máxima do mais velho,
que quando revê o mundo ao espelho,
se lembra do bom do passado,
do quanto foi abençoado,
antes de ser tudo diferente
e ter agora saudades do antigamente.

E se o mundo muda numa geração,
ficando do antes, a recordação,
porque não aproveitar agora,
para invejar com a sua história?
Passar a ser ele quem deixa a saudade
e se tornar, pelas palavras, uma sumidade.

Mas as saudades vão falando mais alto
Porque tendemos, com sobressalto,
recordar apenas o agradável,
que a nossa mente, de forma incansável,
Faz questão de lá manter.
É a ilusão de, "antes, é que era viver!"