
Tenho saudades, tantas vezes
de outras idades, de outros meses.
De muitos Natais, de uma lareira
e dos meus pais, à cabeceira.
Sinto a mesma falta que a gente sente
daquela malta irreverente,
quando o juízo nos toma conta
e sem aviso, nos desaponta.
É uma azia em jeito de dó
a casa vazia da minha avó.
E o limoeiro abandonado
raiz num canteiro todo rachado.
Ainda recordo como era antes
e ainda acordo de olhos distantes.
E de repente, faz-me companhia
a cevada quente que ela me fazia.
Tenho ainda a memória fresca
dos dias de rio, do meu pai na pesca.
Da avidez de cada verão,
de jogar xadrez com o meu irmão.
E que inesquecível é também
o bolo de figo da minha mãe.
Naquele tempo, não sei o que havia,
mas tínhamos todos aquela magia
dos que, apesar das dificuldades,
durante esta vida, deixam saudades.
1 comentário:
É a velha máxima do mais velho,
que quando revê o mundo ao espelho,
se lembra do bom do passado,
do quanto foi abençoado,
antes de ser tudo diferente
e ter agora saudades do antigamente.
E se o mundo muda numa geração,
ficando do antes, a recordação,
porque não aproveitar agora,
para invejar com a sua história?
Passar a ser ele quem deixa a saudade
e se tornar, pelas palavras, uma sumidade.
Mas as saudades vão falando mais alto
Porque tendemos, com sobressalto,
recordar apenas o agradável,
que a nossa mente, de forma incansável,
Faz questão de lá manter.
É a ilusão de, "antes, é que era viver!"
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