4.10.15

URNAS





Antes, eu era jovem, era ingénua, era lírica.
Usava o meu cartão de eleitor como o Robin dos Bosques usava o seu arco e flecha.
Era um dia feliz. E eu era importante.
Hoje votei velha, desiludida e órfã.
E o meu cartão de eleitor pareceu-me absolutamente insignificante.
Antes, eu desenhava numa cruz um futuro, uma convicção, uma esperança.
Hoje, dei emprego a alguém.
Mas cumpri o tal do "dever cívico".
A diferença é que já não espero que, do lado de lá, se cumpra o deles.
A grande diferença é que já não há diferença nenhuma.
Só indiferença.
Fui...
Mas regressei enjoada, coxa e absolutamente só.
Com o meu arco sujo de pó e a minha flecha atravessada no meu próprio peito.

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