Queria dizer-vos que sou normal,
Que esta coisa que tenho chorada
Que alguns apelidam de desequilibrada
Não é patologia de hospital
Não precisa de tratamento medicinal
Vem de um quarto que já não tem nada
Queria dizer-vos que não estou maluca
Que esta coisa que tenho doída
Que alguns chamam suicida
Vem de uma luz enorme que ficou pouca
De uma voz de dentro que me ficou rouca
Vem da parede do meu peito que ficou oca
Queria pedir-vos que me deixem estar
Que, talvez, desta vez, não faça mal magoar
Que esta coisa que eu tenho de dolorosa
Talvez seja, quem sabe, uma respiração piedosa
Como prescrição para um sintoma
Como uma pomada num hematoma
Ou como o sopro calmante de anestesia
Que tinham os lábios da minha Maria
Nas minhas coisas choradas, magoadas, doídas
Sempre que me ardiam as minhas feridas.

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